terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A distribuição de renda e o analfabetismo

15 anos sem Ênio Silveira       




 

Enio Silveira e Monteiro Lobato: livros como ferramentas insubstituíveis na formação de um povo


O confronto de longo prazo

O problema da concentração da renda e as medidas para desconcentrá-la que desde o primeiro governo Lula é o centro da discussão nas principais ações do governo reflete na estratégia da esquerda militante.

Do meu ponto de vista as conquistas da classe trabalhadora e o avanço da cidadania só não sofrerão retrocesso se tivermos uma larga faixa da população esclarecida e politizada para a sustentação do confronto político no longo prazo. 

A imprensa golpista, O Estado de São Paulo, A Folha de São Paulo, O Globo (hoje integrante das organizações Globo), a mesma que pregou a deposição de Getúlio (1951-1954) e de Goulart até concretizar o golpe em 1964 continua ativa em seu trabalho de contra-informação, desinformando a população.

Este trabalho solerte de difamar e desinformar não pode ter seus efeitos subestimados no longo prazo, à vista que foi por martelar mentiras diuturnamente que os nazistas chegaram ao poder em 1933 na Alemanha e os conspiradores nos quartéis tendo como braço civil os jornais galvanizaram a opinião pública antes de colocarem os tanques nas ruas rompendo com toda a legalidade e chegando ao poder pelo golpe de Estado aqui no Brasil em 1964.  

A mutabilidade da realidade política  
    
O cenário político de hoje depois das duas vitórias do ex-presidente Lula e da vitória da presidenta Dilma é inebriante, o que nos serve de alerta à vista de que a vitória eleitoral é sempre muito ilusória, dada a dinâmica e mutabilidade da opinião pública. 

A eleição do ex-presidente Lula não foi aportada em uma politização da massa trabalhadora, a esquerda continua minoritária, com quadros reduzidos, sem a necessária qualificação e atuando em uma ambiente em que predomina o analfabetismo, basta que se constate a luta política nos Municípios do interior do país[1].

Não nos iludamos, não temos uma larga faixa da população esclarecida para sustentar o confronto de longo prazo pela distribuição de renda, e estamos inebriados pelas vitórias eleitorais, o que embota nossa capacidade de mirarmos o trabalho miúdo, mas imprescindível, na organização e elevação do nível cultural da população, em particular da nova classe trabalhadora urbana. 

O partido como educador

Em minha percepção, temos bons quadros políticos distribuídos por vários partidos mas nos está faltando estratégia para orientar a tática adequada no cotidiano do trabalho político. 

A estratégia adequada será encetada pela elevação cultural nas associações de classe, movimentos sociais, partidos e igrejas no combate ao analfabetismo e incentivo à leitura. Formar bibliotecas nos sindicatos, lutar pela melhora das bibliotecas públicas, fundar bibliotecas nas associações de bairros, reivindicar que os livros cheguem aos caminhões nas bibliotecas dos colégios públicos[2] e não em pacotinhos pelo correio como ocorre hoje.

Os partidos de esquerda precisam elevar o nível cultural de seus militantes, filiados e quadros, pôr esta tarefa de qualificação como prioridade, reivindicarmos a melhoria das bibliotecas públicas do Município onde estiver um diretório do partido. É intuitivo que a melhor forma de dar efetividade a esta tática é convergir PT, PC do B, PSOL e PSTU para esta frente de elevação do nível cultural da esquerda e da população, esclarecendo-a e politizando-a. 

“A política é um apelo ao conhecimento”

Por ser a realidade política cultural e psicológica, os movimentos sociais e os militantes dos partidos de esquerda  encontram no analfabetismo um óbice para agir e liderar. 

A esquerda que sempre quis representar e defender o povo encontrou no analfabetismo e no baixo nível cultural da população uma muralha impossível de ser transposta para se fazer entender, organizar e liderar pois a mera propaganda agitativa ou reivindicação corporativa inventada por Martov nunca foi capaz de contornar esta deficiência da massa trabalhadora.  

Além disso, a esquerda falhou também por ter sido hegemonicamente leninista: a clandestinidade sempre afastou-a do povo; o partido leninista como bloco monolítico e marcadamente hierarquizado provocou inúmeras frações sempre que surgiu uma divergência (com terríveis infâmias sendo lançadas contra quem discordava da linha oficial do Partidão); a atitude conspiratória e revolucionária, típica do leninismo, sempre gerou análises de conjuntura ambíguas e descoladas da realidade, o que  fez a esquerda andar caudatária dos fatos políticos ao invés de liderar. 

Com a fundação do PT, um partido não leninista e até mesmo sua negação, a esquerda equacionou estes problemas, o que lhe permitiu chegar ao poder com um líder operário.

As conquistas efetivadas pelo governo Lula e as que serão realizadas no  governo da presidenta Dilma Roussef serão aquelas exequíveis na realidade política que temos. Se quisermos mais conquistas com mais distribuição de poder e renda teremos que alterar a realidade política - que é cultural e psicológica -, elevando o nível cultural da população. 

Assim, entendo que é nos detalhes da tática que estamos a nos perder. Não estamos conseguindo agir além do imediatismo de cada eleição; não estamos vislumbrando como os pequenos atos se inserem nos grandes ciclos da política e da história, está nos faltando estratégia a orientar nossa tática pois estratégia só existe quando pensamos nos resultados a serem colhidos a longo prazo

A estratégia a que me reportei já foi teorizada por homens como Gramsci, Monteiro Lobato - do meu ponto de vista, em tudo por tudo superior a Gramsci, pela obra e pelas idéias arejadas - e pelo inesquecível Enio Silveira.



[1] Dados coletados pelo IBOPE em 2005 comprovaram que 75% da população brasileira é analfabeta. “Apenas 25% da população brasileira entre 15 e 64 consegue ler e escrever plenamente. Os outros 75% apresentam muita dificuldade ou nenhuma habilidade na leitura e na escrita. É o que atesta a terceira pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) no Brasil sobre analfabetismo funcional e absoluto.
Entre os dois mil entrevistados, 68% são analfabetos funcionais, isto é, apresentam dificuldade em interpretar textos e não têm muita habilidade na escrita.”
http://www.educacional.com.br/noticias/noticiaseduc.asp?id=226926

[2] Estimo que a biblioteca da cada colégio público que tenha até 1.000 alunos precisa de no mínimo 40.000 livros além dos didáticos já existentes.

   

Um comentário: