domingo, 26 de junho de 2016

 Hemingway e Garcia Márquez

Hemingway e Fidel 
               


Quando ainda era criança queria ser escritor, nem sabia o que era literatura e falava de literatura... Foi nesta fase de minha vida que o pai de um amigo me emprestou uma grande quantidade de livros de Humberto de Campos, não sei quantos; lia um, devolvia e recebia outro... Este cidadão há muito falecido também me fazia ouvir bossa nova, que eu nem sabia o nome...

De Humberto de Campos não lembro nada do que li, acho que nem entendi aquelas coisas de adultos. Ele já foi muito lido, suas crônicas faziam um enorme sucesso, hoje é um escritor esquecido, suponho que nem os moradores da rua com seu nome no bairro da Graça em Salvador sabem quem foi ele.

Como não tenho cultura musical, sou igual a urubu, não toco nem canto nada, mas como a memória auditiva e olfativa não são facilmente apagadas descobri depois de velho que gostava e conhecia bossa nova e gostava de ouvir jazz.

Durante muito tempo acalentei secretamente o desejo de ser escritor. Queria aprender a escrever, lia os grande escritores, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Gabriel Garcia Márquez, Dostoiévski, Mário Vargas Llosa, Ernest Hemingway, Albert Camus, Melville, Lima Barreto, José de Alencar, Raul Pompéia, Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca... Li dezenas de entrevistas de escritores, queira aprender a carpintaria, a prática do ofício...

Foi o período em que mais descuidei da aparência, usava umas sandálias de cangaceiro, cabelo e barbas crescidos, tinha uma força um tanto selvagem, dormia pouco, lia o tempo todo e foi o tempo menos atormentado de minha juventude pois nesta busca em que estava por inteiro, um vulcão voltado para dentro, minha vida era plena de sentido.

Lia os textos procurando descobrir como tinham sido feitos. Todos os grandes escritores ensinam alguma coisa do ofício, alguns mais outros menos. Vargas Llosa é um dos que narram como escreve e como aprendeu em três livros, “Conversas com Vargas Llosa”, “Peixe na Água” e “Orgia Perpétua”, este é o desvendamento de como escrevia Gustave Flaubert.

Garcia Márquez também obsequia com ótimas dicas quem aspira ao ofício ou simples curioso em diversos textos tais como suas memórias, “Viver para Contar” e “Cheiro de Goiaba”. Neste consta a lição mais prática e a mais dura.

Ele vivia em Paris no começo dos anos sessenta com a grana que recebia como correspondente de um jornal colombiano que foi fechado por um ditador fazendo piorar os problemas financeiros do futuro ganhador do prêmio Nobel de literatura.

Narra Garcia Márquez que Paris é dura com a miséria. Sem saber o que iria comer no dia seguinte e sem receber o cheque enviado pelo jornal fechado no mês seguinte teve que deixar o hotel. 

A guerra de libertação da Argélia estava a todo vapor. Dormir na rua ou no metrô era um problema pois seus traços fisionômicos lembravam um argelino e a polícia não descuidava.

Um dia aconteceu: depois de uma noite insone, cochilando no metrô, ele andava em uma das margens do rio Sena, amanhecia, passou um sujeito e só por uma fração de segundo ele vê nitidamente o rosto do cara, estava chorando... Ainda nesta fase ele vai para o encontro com um possível editor e chega primeiro e sai por último porque o solado do sapato estava soltando.

Ele já tinha escrito quatro bons livros quando escreveu “Cem Anos de Solidão”. Estava morando no México quando o escreveu e para enviar os originais ao editor empenhou o secador de cabelos da mulher para pagar as despesas da postagem e já estava devendo ao padeiro e ao açougueiro. Com este livro ganhou o Nobel e saiu da dureza.

Presenciei o próprio Jorge Amado dizer que para ser escritor era preciso ler muito, escrever bem e ter nascido para isto. Eu gostava de ler, poderia ter aprendido a escrever mas descobri que para isto eu iria sacrificar quem estivesse ao meu redor, família, amigos. Recuei... Se já estava na dureza iria mergulhar na mais absoluta pobreza pois a literatura é mais exigente que mulher ciumenta, quer você por inteiro o tempo inteiro.

A semana passada estava mexendo em minhas caixas de livros e lembrando desta fase de minha vida. Dela permanece ainda viva a imensa admiração por Ernest Hemingway, o escritor cuja vida para mim era um modelo; escrevia bem, de seus textos emanam a força selvagem da natureza, opinava em política, boxeava, pescava, amava, bebia, estava onde estivesse uma boa causa, era amigo de gente simples, vivia intensamente, desprezava o perigo e afrontou algumas vezes a morte.

Às vezes mexendo em coisas guardadas bate aquela saudade de algumas coisas tão distantes.


Nenhum comentário:

Postar um comentário