quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

                   FALTA DE NOÇÃO


        

Sem raciocínio crítico você pode acreditar em qualquer coisa, no que diz Silas Malafaia, Edir Macedo e outros exploradores da credulidade alheia.

Sem dúvidas que eles exploram um produto largamente difundido e aceito e isto facilita a fraude. Mas ainda assim quem acredita sem pensar e analisar criticamente pode até acreditar que o bandoleiro Lampião era gente boa e coisa e tal.

Lampião, Virgulino Ferreira da Silva, era um bandido perverso e que pelo terror que disseminou sobreviveu muito tempo, invadia fazendas e cidades e mediante ameaças de mortes cruéis extorquia quem queria.

A única cidade em que recebeu o tratamento adequado foi em Mossoró, RN, pois tentou extorquir com uma carta ameaçadora e foi desafiado a entrar na cidade. Foi recebido como deveria, com a população de armas em punho, e depois de três horas de combate desistiu de tomar a cidade e fugiu com seu bando. As frinchas das paredes das casas de Mossoró provocadas por esta resistência honrosa estão preservadas, fazem parte da memória histórica da cidade.

Nunca foi um "bandido social", um Robin Hood do Nordeste brasileiro. Não existe um fato que justifique esta crença.

Contudo, em verdadeira ação de desinformação e falta de noção do ridículo apareceu uma escola de samba para fazer a apologia, isto mesmo, uma homenagem a Lampião e seus crimes.

Foi campeã. É por estas e outras que tomei horror ao carnaval. É muito lixo tratado como coisa de valor.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

         MARIGHELLA, o quarto capítulo

 

Carlos Marighella, deputado constituinte em 1946; guerrilheiro contra a ditadura instalada em 1964

Assisti a série em quatro capítulos sobre Marighella dirigida por Wagner Moura. O primeiro capítulo é caricaturado do início ao fim, os diálogos, a história que nada esclarece. Perdi meu tempo pois produto pior não poderia ter sido produzido. Os diálogos são ruins e o ator que representa Marighella longe está do herói da resistência. Uma fieira de erros que gerou um produto incompreensível.

O segundo capítulo é pior que o primeiro pois mostrou um Marighella defendendo o terrorismo sem contextualizar.

Ele defendeu o terrorismo sim, está escrito no "Mini-manual do Guerrilheiro Urbano", preto no branco, dizendo que ao terror da direita deveria ser oposto o terror da esquerda. Portanto, não foi como está na série de autoria de Wagner Moura onde do nada Marighella defende o terrorismo.

Quanto ao ator negro ao invés de um mais parecido com Marighella é destas licenças poéticas que ao invés de ajudar a tornar compreensível o personagem só faz confundir. A escolha faz parte desta moda "nova": acreditar que existem raças e usar isto para explicar os fatos sociais. Hitler está na crista da onda.

Gostaria apenas que o ator fosse convincente o suficiente para representar um revolucionário de tempo integral como era Marighella, o verdadeiro.

A última cena do último capítulo da série MARIGHELLA foi a melhor. Os sobreviventes da ALN – Ação Libertadora Nacional - de mãos dadas e em círculo cantavam o Hino Nacional; transmitiu muita emoção e a determinação daqueles bravos brasileiros para levarem a luta armada até o último homem.

Cena parecida só no filme CABRA CEGA, onde dois combatentes, um homem e uma mulher, saem para um combate direto e suicida às forças da repressão.

Percebe-se com facilidade - quem tem alguma familiaridade com a história recente do país - as pessoas reais que inspiraram os personagens da série: Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo, o segundo homem da ALN, com os óculos de aros finos e modos afáveis que o caracterizaram; Virgílio Gomes, o Comandante Jonas, e seu assassinato a socos e pontapés; o delegado Lúcio é sem dúvidas inspirado em Sérgio Fleury, viciado, associado ao tráfico de cocaína e assassino profissional.

Tem um personagem representado por uma moça pequena e valente que sem dúvidas foi inspirada em Maria do Rego Barros, arquiteta, pertencia na época à ALN e presenciou no pau-de-arara os últimos minutos de vida de Toledo em um sítio na periferia de São Paulo, um antro clandestino de torturas comandado por Sérgio Fleury.

Este bandido pertencia ao famigerado "esquadrão da morte", um grupo de policiais recrutados no lúmpen do proletariado (o refugo de todas as classes) composto de cafetões, achacadores de pequenos comerciantes, sendo o próprio Fleury condenado por associação ao tráfico de cocaína. Foi a esta escumalha que o Exército brasileiro se associou para combater Marighela e todas as organizações da luta armada urbana.

Maria Rego Barros impôs respeito a este celerado, quando foi torturada o enfrentou e nada lhe revelou.

A Maria real bem como a personagem nela inspirada é uma mulher extraordinária, de coragem ímpar. Morava ou mora ainda em Lauro de Freitas, BA, foi o que soube na última notícia dela. A Maria real e a personagem bem como Toledo capturaram minha irrestrita simpatia.

Não percebi na série nenhum personagem inspirado em Carlos Eugênio, o comandante Clemente, o único sobrevivente do comando nacional da ALN.

Wagner Moura não estava preparado para o que tentou fazer, mesmo usando o livro de Mário Magalhães para escrever o roteiro.

Salvo a última cena percebo que foi perdida uma grande oportunidade de fazer uma ótima obra sobre estes brasileiros extraordinários, de grandeza anônima, que lutavam para libertar a população da ditadura instalada com o golpe de Estado de 1964, lutavam contra um governo da fato, totalmente ilegítimo, o crime como forma de governo. 

domingo, 25 de dezembro de 2022

                                              SEM ILUSÕES


Anísio Teixeira - patrono da educação pública brasileira foi assassinado pela Aeronáutica  


Já falei para amigos que não tenho mais ilusões nas transformações que o PT possa fazer na educação pública no Estado da Bahia. São 16 anos de governo e com os 4 de Jerônimo serão 20 e sequer uma iniciativa que demonstre alguma transformação para melhor pode ser constatada até agora. 

Não me falem em escolas com piscina e muitos azulejos nas paredes como tem feito os governos do PT na Bahia pois eu não nasci ontem e sei que é uma embromação para enganar os incautos querer educar jovens e adolescentes que frequentam o ensino médio sem boas bibliotecas nestes colégios.

Outra coisa, temos que melhorar a qualidade dos livros didáticos. Em 16 anos de governo do PT na Bahia nada foi feito para isto. É uma necessidade premente livros que prestem na área das ciências naturais (física, química e biologia) e matemática. Os livros publicados pelo Ministério da Educação são muito ruins.

Reitero, caso queiramos melhorar o ensino médio, que é competência dos Estados, teremos que ter livros didáticos de qualidade. A EGBA - Empresa Gráfica da Bahia - pode editar um livro projeto-piloto em cada matéria para irmos aperfeiçoando com o tempo e de acordo com as críticas e sugestões de alunos e professores.

Estimo que em um colégio do ensino médio com 600 ou 800 alunos deveria ter uma biblioteca com no mínimo 40.000 livros (não estas porcarias que o Ministério da Educação envia em excesso, o que denota fraude nas compras) envolvendo livros de história do Brasil e geral, sociologia, literatura, vulgarização científica, biografias e etc. Examine qualquer colégio do ensino médio na Bahia e veja como está a biblioteca...

O mestre baiano Anísio Teixeira foi assassinado pela Aeronáutica em 11 de março de 1971 [1]; em 1964, José Porfírio, um líder camponês depois de passar uns dias presos em um Quartel do Exército em Brasília foi solto e desapareceu na Estação Rodoviária da Capital Federal para nunca mais ser encontrado, o crime do cidadão: alfabetizar crianças em uma liga camponesa (existe um documentário na TV pública sobre este caso).

Paulo Freire e Darcy Ribeiro tiveram que buscar o exílio para não terem o mesmo destino de mestre Anísio Teixeira. O saudoso Ênio Silveira teve sua editora levada à bancarrota pelos militares

Ênio Silveira é o nosso Gramsci. Uma vez perguntado o que faria se fosse Ministro da Cultura respondeu que começaria com um plano violentamente agressivo de reorganização das bibliotecas nacionais e depois partiria para um programa de parceria entre governo e editores [1].

Tenho certeza que não é por ignorância esta indigência planejada em que grassa a educação no ensino médio do Estado da Bahia. É o medo que domina esta gente, Jacques Wagner e Rui Correria, pois sabem que depois de deflagrado o processo de uma boa educação ninguém mais controlará. Tenho verdadeiro apreço por estes companheiros pois são pessoas afáveis e nunca me fizeram mal, portanto, nada tenho de pessoal contra eles.

Eu não conheço Jerônimo mas tenho certeza que como os outros dois não tem colhões para iniciar uma profunda transformação na educação na Bahia, todos eles sabem que quem levar uma boa educação para os filhos do povo entra na linha de tiro da classe dominante.

Mas vamos ser justos: quantos livros Gilberto Gil e Juca Ferreira (o Ministro da Cultura de fato) colocaram em qualquer biblioteca do Brasil? E Margarete Menezes, qual o livro que está lendo?

Sinceramente...

 

Notas

[1] Anísio Teixeira foi assassinado, defende relatório

https://atarde.com.br/politica/anisio-teixeira-foi-assassinado-defende-relatorio-760179

[2] Ênio Silveira - Arquiteto de Liberdades, p. 64

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

                            OS PROFESSORES IMPLACÁVEIS

 



O governo Lula que começará em 1º de janeiro de 2023 está em uma encalacrada pois a federação de partidos que elegeu o Presidente da República não fez a maioria de Deputados e Senadores no Congresso Nacional. Isto é resultado de o cidadão votar livremente para Presidente e vender o voto para Deputado Federal.

O preço deste equívoco vai nos custar caro, o Presidente Lula poderá não concluir o mandato. Todos pagamos para aprender, tanto a sociedade como os indivíduos. O preço mais barato é o pagado em dinheiro. Para mim foi importante aprender isto pois ficou mais fácil entender como a sociedade aprende e o ciclo da aprendizagem.

A política feita para transformar a sociedade com base nos princípios socialistas é um apelo ao conhecimento pois a opacidade que encobre a realidade social é difícil de ser rompida. A esta opacidade Marx chamava de ideologia.

A agenda política da classe dominante é sempre oculta pela ideologia mas também pela astúcia. Ela nunca vai dizer que o trabalho análogo ao escravo é o filé mignon dos lucros, entre outras ilegalidades, por exemplo, a sonegação de tributos e fraudes as mais diversas.

Desta maneira a política feita pela esquerda é sempre mais difícil de ser compreendida pelos trabalhadores brasileiros dada a condição cultural precária destes. Por isso também a propaganda política sempre mentirosa dos partidos braços políticos da classe dominante tem aceitação entre os trabalhadores.

É por esta razão que só os fatos têm largo poder didático. Então tempo e paciência são fundamentais para ajudarmos com o trabalho político o poder pedagógico dos fatos.

Isto vale também para setores intelectualizados da sociedade. Foi assim que aprendi a ter calma para quando ver um pateta atirando no próprio pé concluir: sua hora vai chegar, os professores implacáveis, os fatos, irão lhe ensinar. Se tem uma coisa que é totalmente democratizada na política e na vida é a desilusão, o esfumar de teses em colisão com a realidade.

Então quando ver um pateta atirando no próprio pé não se aborreça, faz parte do aprendizado dele. Se conseguir rir, melhor ainda pois como disse seu Rosa, o das Gerais, fazemos melhor até as piores coisas quando fazemos com alegria.

 

 

terça-feira, 8 de novembro de 2022

                                       GOVERNAR É PRECISO

 


 

Está no link abaixo o vídeo [1] de uma mesa redonda promovida por Breno Altman onde Valério Arcary, José Dirceu e Júlia Rocha opinam e debatem e o tema é a transição e a encrenca que é o corte de gastos no Projeto de Lei da LOA (Lei Orçamentária Anual) de 2023.

 

Os três participantes são muito preparados mas gostei e subscrevo a análise de Zé Dirceu. A moça, Júlia Rocha, foi uma boa surpresa pela lucidez  e realismo na análise. 


Como se sabe, o bolsonarismo tem maioria hoje no Congresso Nacional, Câmara e Senado, e terá também na próxima legislatura.


Por  óbvio, se sabe  que não será possível o Presidente Lula governar negociando com o adversário bolsonarista ponto por ponto, Medidas Provisórias, Emendas Constitucionais e Projetos de Leis, para implementar o programa de governo da Federação de Partidos que ganhou a eleição para Presidente da República.


Falou-se na mobilização da sociedade para sustentar o governo. Penso que isto é inviável no momento. Não temos dinheiro nem organização para tanto e creio que não seja possível manter a população mobilizada por quatro anos ininterruptamente.


Estamos pagando a conta da desmobilização das Comunidades Eclesiais de Base e da desarticulação interna do PT, que já teve núcleos e por meio deles intenso poder de mobilização na disputa política. 

 

Entendo que há que se dividir o "centrão" e trazer uma parte dele para a base de apoio do Presidente Lula no Congresso Nacional para ele poder governar. Zé Dirceu pensa coisa parecida. Para mim o Comandante Daniel ainda é o grande estrategista da esquerda brasileira.

Salve Dirceu!


Nota


[1] BOLSONARO FARÁ TRANSIÇÃO PACÍFICA PARA LULA?

https://www.youtube.com/watch?v=QWZZZQXvhbo


quinta-feira, 29 de setembro de 2022

   O SEGUNDO ÉPICO





Terminei de ler o livro LAMARCA - O CAPITÃO DA GUERRILHA, de Emiliano e Oldack. 


É a terceira vez que leio este livro, agora em 17ª edição, com mais de cem páginas acrescentadas e com mais informações colhidas pela CNV - Comissão Nacional da Verdade -  e pelos próprios autores depois do fim da ditadura.


É um livro que trata do segundo épico da história do Brasil, a luta de civis contra o Exército na luta armada contra a ditadura instalada pelos criminosos que assaltaram o governo Federal em 1964. O primeiro foi o massacre ocorrido em Canudos e perpetuado no livro OS SERTÕES, de Euclides da Cunha.


Nos dois épicos, o covarde, bandido e ladrão de vidas dos brasileiros foi o Exército; nos dois houve um recontro de forças absurdamente desiguais e a coragem dos civis foi até o fim, "Canudos não se rendeu", nem Lamarca, nem Zequinha, nem Carlos Eugênio, nem Franklin Martins, nem Zé Dirceu, nem Benjamim Ferreira e nem muitos outros mais.


O livro esclarece alguns fatos, por exemplo, a reconstrução da VPR - Vanguarda Popular Revolucionária -  no mesmo congresso de fusão com a VAR-Palmares - Vanguarda Armada Revolucionária. Iniciado em 1º de setembro de 1969, o Congresso de Teresópolis durou quase 30 dias e tinha 22 delegados.


Tensão e desconfiança brotavam do ambiente e durante as discussões das teses políticas um nervo foi exposto, e como sempre, dizia respeito a divergências de estratégia e tática: o Capitão Lamarca, Cláudio Marinheiro e outros companheiros pressionavam pelo começo imediato da coluna guerrilheira no campo. O outro grupo não pensava exatamente assim e recordava que sem a classe operária como protagonista não haveria Revolução proletária.


Para o primeiro grupo isto significava procrastinar a luta armada no campo e decidiu refundar imediatamente a VPR. Os nervos estavam à flor da pele e com armas ao alcance das mãos para reforçar argumentos, dois companheiros se desentenderam e apontaram armas um para o outro, Nóbrega e Espinosa. Foi assim que o Congresso quase termina em troca de tiros entre guerrilheiros.


Outro fato que eu não conhecia o desenrolar é também esclarecido, a causa do desentendimento entre Marighella e Lamarca depois que este saiu do quartel de Quitaúna levando 63 fuzis FAL, metralhadoras e muita munição.


Marighella não quis devolver as armas, das quais ficou como depositário, e o Capitão Lamarca as queria de volta a qualquer custo, para tanto ele e Cláudio Marinheiro fizeram uma expedição a um aparelho onde ficava Marighella, que no momento não estava, mas encontraram Toledo, Joaquim Câmara Ferreira, e quando este  disse que as armas já estavam no campo, se negando a devolvê-las  ao Capitão, este enfiou o cano da pistola 45 na boca do velho comunista e bradou: queremos as armas ou alguns miolos serão estourados, os seus, os de Marighella e  de todo mundo.  


Marighella devolveu apenas a metade das armas e Lamarca jamais voltou a confiar nele. Que coisa feia o guerrilheiro baiano fez e ainda deixou que as coisas se resolvessem desta maneira.


Este segundo épico está esperando o Euclides para fazer a obra à altura dos fatos, da grandeza e coragem de seus participantes. Que leia tudo sobre a luta armada contra a ditadura instalada em 1964, entreviste os sobreviventes e faça a grande obra de síntese.


Lamarca e Zequinha foram assassinados covardemente nos sertões da Bahia em 17 de setembro de 1971, o Capitão primeiramente com três tiros disparados em suas costas; depois mais quatro pela frente, a curta distância. Zequinha enfrentou seu assassino, que estava armado com uma metralhadora, atirando nele uma pedra. Não se renderam.

 


quinta-feira, 11 de agosto de 2022

                                     O DEVER DO ADVOGADO

 



Hoje, 11 de agosto, é dia do advogado.

Procurei ler tudo o que encontrei sobre a profissão de advogado, livros e biografias de advogados que admirei pelo exercício da profissão.

 

Li biografias de Rui Barbosa, de Sobral Pinto, Evandro Lins e Silva, Calamandrei e livros que dão boas orientações para o exercício da profissão de  Técio Lins e Silva, Francisco Mussinich e outros mais. Li sobre casos famosos, Saco e Venzzeti, Tiradentes, julgamentos de  Jesus Cristo e de Sócrates mas nenhum livro me impactou mais que O DEVER DO ADVOGADO, de Rui Barbosa.

 

Rui escrevia muito bem, tem beleza e profundidade em seus textos, tinha coragem, era um doutrinador, cravava princípios e valores, lançou verdadeiros dogmas da deontologia da profissão de advogado. 

 

Vejamos um destes dogmas deontológicos e como Rui o escreveu em O DEVER…  "Todos se acham sob a proteção das leis, que, para os acusados, assenta na faculdade absoluta de combaterem a acusação, articularem a defesa, e exigirem a fidelidade à ordem processual. Esta incumbência, a tradição  jurídica das mais antigas civilizações a reservou sempre ao ministério do advogado. A este, pois, releva honrá-lo, não só arrebatando à perseguição os inocentes, mas reivindicando, no julgamento dos criminosos, a lealdade às garantias legais, a equidade, a imparcialidade, a humanidade.

Esta segunda exigência da nossa vocação é a mais ingrata. Nem todos para ela têm a precisa coragem." (p. 45).

 

A coragem, exercer a advocacia com destemor é a prova de fogo dos advogados, é o exame em que poucos passam pois nosso sistema de justiça é pior que papel higiênico usado e os advogados suportam calados e imersos no mais cínico fatalismo.

 

A maneira como se apuram fatos e circunstâncias materiais nos Inquéritos Policiais, a maneira como o Ministério Público oferece denúncias e juízes conduzem a instrução de processos é de uma rudeza, estupidez e má-fé que açoda o ânimo de qualquer pessoa honrada.  E os advogados suportam tudo isto resignados e mudos.

 

Existe uma exceção neste mar de espíritos domesticados: Lênio Streck. Foi  um refrigério para minha tormenta conhecer seus textos. 

 

Sou ninguém na fila do pão; não acredito em deuses mas sei que recebi uma missão "divina": combater este sistema de justiça tal como se encontra até o último suspiro. Acredito que como remédio definitivo só o fogo.

 

Tenho como certo que se a população brasileira não tivesse passado pelo processo de escravidão muitos fóruns já teriam sido depredados e alguns que fazem do direito alheio papel higiênico já teriam sido pendurados nos postes de iluminação pública. 

 

Mas temos que reconhecer que nem sempre ser forte consiste em atacar pois resistir também é ser forte. 

 

Não me render, não dar esta alegria ao inimigo, faz parte de minha missão como advogado. O resto é trabalho e perseverança. Em breve escreverei um livro sobre o Judiciário e o seu coração, o poder absoluto dos juízes em colisão com o pilar da República inscrito no parágrafo único do art. 1º da Constituição da República: "Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição."

 

Este poder sem oposição, contraste ou contrapeso faz com que não exista código de processo que obrigue um juiz a julgar conforme o direito, cuja fonte principal é a lei. Quem moureja na advocacia sabe o que é esta máquina infame de humilhar e destruir vidas chamada Judiciário pois "Não existe sofrimento mais confrangente que o da privação da justiça",  escreveu Rui.

 

Contudo, me sinto satisfeito em ser advogado e feliz nesta data de hoje. Todos nós temos uma missão a cumprir nesta vida ingrata e nela fazemos o melhor, mesmo que este melhor seja o pior.

 

Meu blog é uma barricada de luta contra este filho ilegítimo da República. https://blogdeluizbrasileiro.blogspot.com/