MARIGHELLA, o quarto capítulo
 |
| Carlos Marighella, deputado constituinte em 1946; guerrilheiro contra a ditadura instalada em 1964 |
Assisti a série em quatro capítulos sobre Marighella dirigida por Wagner
Moura. O primeiro capítulo é caricaturado do início ao fim, os diálogos, a
história que nada esclarece. Perdi meu tempo pois produto pior não poderia ter
sido produzido. Os diálogos são ruins e o ator que representa Marighella longe
está do herói da resistência. Uma fieira de erros que gerou um produto
incompreensível.
O segundo capítulo é pior que o primeiro pois mostrou um Marighella
defendendo o terrorismo sem contextualizar.
Ele defendeu o terrorismo sim, está escrito no "Mini-manual do Guerrilheiro Urbano", preto no branco, dizendo que ao terror da
direita deveria ser oposto o terror da esquerda. Portanto, não foi como está na
série de autoria de Wagner Moura onde do nada Marighella defende o terrorismo.
Quanto ao ator negro ao invés de um mais parecido com Marighella é
destas licenças poéticas que ao invés de ajudar a tornar compreensível o
personagem só faz confundir. A escolha faz parte desta moda "nova":
acreditar que existem raças e usar isto para explicar os fatos sociais. Hitler
está na crista da onda.
Gostaria apenas que o ator fosse convincente o suficiente para
representar um revolucionário de tempo integral como era Marighella, o
verdadeiro.
A última cena do último capítulo da série MARIGHELLA foi a melhor. Os sobreviventes da ALN – Ação Libertadora Nacional - de mãos dadas e em círculo cantavam o Hino
Nacional; transmitiu muita emoção e a determinação daqueles bravos brasileiros
para levarem a luta armada até o último homem.
Cena parecida só no filme CABRA CEGA, onde dois combatentes, um homem e
uma mulher, saem para um combate direto e suicida às forças da repressão.
Percebe-se com facilidade - quem tem alguma familiaridade com a história
recente do país - as pessoas reais que inspiraram os personagens da série:
Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo, o segundo homem da ALN, com os óculos de
aros finos e modos afáveis que o caracterizaram; Virgílio Gomes, o Comandante
Jonas, e seu assassinato a socos e pontapés; o delegado Lúcio é sem dúvidas inspirado em Sérgio
Fleury, viciado, associado ao tráfico de cocaína e assassino profissional.
Tem um personagem representado por uma moça pequena e valente que sem
dúvidas foi inspirada em Maria do Rego Barros, arquiteta, pertencia na época à
ALN e presenciou no pau-de-arara os últimos minutos de vida de Toledo em um
sítio na periferia de São Paulo, um antro clandestino de torturas comandado por
Sérgio Fleury.
Este bandido pertencia ao famigerado "esquadrão da morte", um
grupo de policiais recrutados no lúmpen do proletariado (o refugo de todas as
classes) composto de cafetões, achacadores de pequenos comerciantes, sendo o próprio Fleury condenado por associação ao tráfico de cocaína. Foi a esta
escumalha que o Exército brasileiro se associou para combater Marighela e todas
as organizações da luta armada urbana.
Maria Rego Barros impôs respeito a este celerado, quando foi torturada o
enfrentou e nada lhe revelou.
A Maria real bem como a personagem nela inspirada é uma mulher
extraordinária, de coragem ímpar. Morava ou mora ainda em Lauro de Freitas, BA,
foi o que soube na última notícia dela. A Maria real e a personagem bem como
Toledo capturaram minha irrestrita simpatia.
Não percebi na série nenhum personagem inspirado em Carlos Eugênio, o
comandante Clemente, o único sobrevivente do comando nacional da ALN.
Wagner Moura não estava preparado para o que tentou fazer, mesmo usando
o livro de Mário Magalhães para escrever o roteiro.
Salvo a última cena percebo que foi perdida uma grande oportunidade de
fazer uma ótima obra sobre estes brasileiros extraordinários, de grandeza
anônima, que lutavam para libertar a população da ditadura instalada com o golpe de Estado de 1964, lutavam contra um governo da fato, totalmente ilegítimo, o crime como forma de governo.