segunda-feira, 20 de maio de 2013

A guerra psicológica continua



    A guerra psicológica continua


Sempre tive uma enorme curiosidade por psicologia das multidões, opinião pública, propaganda política, campanhas de incitamento ao ódio e temas afins. Naturalmente os boatos sobre a extinção do Bolsa Família e as reações coletivas provocadas instigaram-me a curiosidade e conduziram reflexões.  

Os boatos sobre a extinção do programa e as reações coletivas que se seguiram permitem algumas ilações: por terem sidos divulgados em vários Estados e com o mesmo conteúdo é certo que houve orquestração. Parece-me certo também que quem divulgou os boatos queria testar a reação da população em face da possibilidade da extinção do programa. É também verossímil que quisessem testar a operacionalidade, isto é, quantos sujeitos seriam necessários para difundir um boato em escala suficiente para causar pânico.

Não tenho dúvidas que estão testando como manipular a opinião pública; querem saber quais hipóteses causam reação, qual reação e a dimensão da reação.

É um fato significativo do ponto de vista político a resposta ao boato da extinção do programa: a reação foi de manada, uma corrida irracional à Caixa Econômica para sacar o que fosse possível; não houve uma reação política, manifestações pela manutenção do programa, com até mesmo depredações, como ocorre nestes tipos de reações indignadas.

É possível aquilatar que quem planejou a operação, escolhendo Estados, cidades e bairros para a divulgação do boato também testou outras hipóteses. Parece-me indiscutível que não se põe em execução uma operação destas sem uma quantidade considerável de recursos, dinheiro e pessoas com traquejo mínimo para operar a divulgação da mentira com capacidade de convencer os desavisados.

Quem poderia estar no comando de uma manipulação desta envergadura? Pelos interesses envolvidos parece óbvio que elementos da cúpula da oposição são os principais suspeitos. Mas também parece óbvio que isto tem todos os ingredientes da maneira de operar do que se chamava "Comunidade de Informação", os órgãos encarregados da repressão direta aos opositores nos anos da ditadura. Eram eles que matavam os opositores quase sempre sob tortura e montavam farsas para serem divulgadas à população: simulavam suicídios, mortes em atropelos durante fuga ou morte em troca de tiros com os pistoleiros da infame. 

Mentir para desnortear, ludibriar e induzir a opinião pública a erro de julgamento em operações de destruição moral de inimigos sempre foi a escolha do serviço secreto brasileiro desde antes da ditadura instalada em 1964. O Sfici - Serviço Federal de Informações e Contra-informação -, como se chamava o que veio depois a ser o SNI, era um reduto dos golpistas a conspirarem contra Jango grampeando seus telefones entre outras coisas ilegais.

Quase todos os elementos deste conjunto desordenado de criminosos daquela época estão aposentados. Alguns estão mortos. Os vivos continuam impunes pois nunca responderam pelos crimes cometidos, o que os estimula a continuarem despejando suas mentiras e ódio em sites como o TERNUMA, GRUPO GUARARAPES, MÍDIA SEM MÁSCARA, COTURNO NOTURNO e redes de mensagens para endereços eletrônicos.

Adestrados pelos manuais da CIA (ver MINISTÉRIO DO SILÊNCIO - A história do serviço secreto brasileiro de Washington Luís a Lula, de Lucas Figueiredo) e obcecados em combater a esquerda e sabotar a democracia estes delinquentes deixaram seguidores nos quartéis e fora deles.

domingo, 5 de maio de 2013

O futuro do PT e o Poder Judiciário



 O futuro do PT e o Poder Judiciário
   x 

Estava escrevendo um texto sobre o Poder Judiciário quando li no blog de Eduardo Guimarães, O Blog da Cidadania, um artigo, “O indiciamento de Lula e o preço da covardia petista”, comovente e para mim verdadeiro em seu vaticínio. Interrompi o que estava escrevendo para manifestar minha concordância com a previsão de dias sombrios antevistos por Edu.

Para Edu a reação frouxa do partido ao julgamento da Ação Penal 470, apenas uma nota questionando a violação das garantias constitucionais, e agora o silêncio diante da instauração de Inquérito Policial pela Polícia Federal no Distrito Federal para apurar as declarações de Marcos Valério envolvendo o ex-presidente Lula com o “mensalão” são erros fatais do PT.

Raciocina o atilado blogueiro que a tática de não enfrentamento, não mobilização da sociedade contra um julgamento marcadamente político e viciado no STF, bem como o silêncio diante da investigação instaurada contra o ex-presidente é um engano.

As cabeças de Zé Dirceu, Genoíno e Delúbio Soares não saciarão aqueles que as degolaram, o Ministério Público, o Judiciário e a mídia golpista. A cúpula dirigente do PT só descobrirá isto muito tarde, quando o PT estiver desmoralizado, destruído, e com seus principais dirigentes na cadeia, digo eu.  

Para mim é nítida a origem da bronca contra o PT. A causa não são os defeitos, mas as virtudes do partido e seus objetivos. No momento o PT é a força política mais avançada, numerosa e organizada da sociedade brasileira a conduzir as reformas que a sociedade e o Estado necessitam, principalmente a distribuição de renda. Se o PT não é perfeito é o melhor que temos.

Sempre combatido pelos inimigos e adversários, por competência política de seus destacados dirigentes alcançou chegar ao poder em 2002 e implementar as reformas que todos conhecem. Envolvido nas mesmas práticas dos outros partidos, principalmente o PSDB, o uso do caixa 2[1] para financiamento de campanhas, o partido não teve o mesmo tratamento dispensado ao PSDB pela mídia, pelo Ministério Público e sequer pelo STF, que deveria julgar com base nas provas e respeitando as garantias constitucionais dos acusados e assim não procedeu.

Como age o Ministério Público nos dois casos

Para se entender como o tratamento ao PT foi diferenciado é preciso não  olvidar o que é o Ministério Público, bem como conhecer o Poder Judiciário, as histórias destas instituições, a verdadeira história, a história ocultada, as entranhas destes inimigos da República.

Com muito lixo embaixo do tapete esperando o ventilador da Comissão da Verdade, o MP durante a ditadura fazia parte do Poder Executivo depois da Emenda Constitucional nº 1, de 17 de outubro de 1969, ato espúrio produzido pela junta militar conhecida como “os três patetas”: cabia ao Ministério Público durante a ditadura dos militares o papel desmoralizante de zelar pela aplicação da legislação de fato produzida pelo ditador do momento, os decretos-leis, leis aprovadas por decurso de prazo e os atos institucionais.

Para competir com o MP em servilismo à ditadura instalada em 1964 só o Poder Judiciário. Toda ditadura é a vitória da força contra o direito e mesmo sabendo disso o Poder Judiciário aplicava a legislação de fato produzida pelo governo de fato fazendo de conta que não existia uma ditadura, em uma manifestação de cinismo ético-jurídico raramente visto.  

Todos sabiam que com a supressão dos direitos fundamentais a tortura era a regra nas Delegacias de Polícia - era flagrante a violação dos DIREITOS HUMANOS -, tudo ocorrendo sob silêncio cúmplice do Ministério Público. A exceção foi a luta pessoal de Hélio Bicudo enfrentando o bando conhecido por “Esquadrão da Morte” chefiado pelo dublê de marginal e policial, o conhecido torturador e assassino profissional Sérgio Paranhos Fleury.

Os presos políticos denunciavam mesmo em situações adversas as torturas sofridas e confissões obtidas mediante suplícios e ainda assim denúncias eram oferecidas pelo Ministério Público e recebidas por Juizes ou Auditores da justiça militar.

Não podemos jamais esquecer que o Ministério Público tinha o descaramento de deflagrar processos utilizando confissões sabidamente obtidas sob tortura.

Com o advento da Constituição de 1988 não mudou muita coisa na definição dos fins a que deve servir esta instituição. Em termos práticos, os órgãos do MP desempenham as mesmas funções da advocacia, constatado que não lhes cabe julgar. Analisada sob o critério da tradicional tripartição das funções do Estado verifica-se que não tem caráter definido, não pertencendo a nenhuma das funções básicas do Estado (executiva, legislativa ou judicial).

Enfim, sendo uma instituição sem caráter lhe foi reservada a incumbência genérica de defesa da ordem jurídica (Art. 127 da Constituição Federal). Assim, seus órgãos esmeram-se em servir as forças políticas que impuseram à nação a Constituição de 1988 com o mesmo regalo com que serviram à ditadura.

É desta maneira, sem fazer o esforço cerebral de uma ameba para entender o protagonismo político das classes e grupos sociais na luta para inovar a ordem jurídica através de novas leis que lhes assegure direitos -  principalmente leis que veiculem políticas distributivas de renda -, que o Ministério Público considera inimigos os movimentos sociais, o PT e demais forças políticas que se insurgem pelas vias normais da participação política contra uma ordem econômica extremamente injusta, embora respaldada em verniz de juridicidade.

É esta instituição que está manejando ações contra o PT e contra o PSDB no STF. Vejamos a atuação nos dois casos. Os fatos envolvendo o PT e o PSDB são muito parecidos, o uso do conhecido Caixa 2, como admite o próprio Procurador-Geral da República na fl. 15 da DENÚNCIA da Ação Penal 470: “Em conclusão, pode-se afirmar que o esquema embrião do que atualmente é chamado “Mensalão” destinou-se ao financiamento da campanha política do candidato ao Governo do Estado de Minas Gerais Eduardo Azeredo, encontrando-se, como já foi afirmado, sob apuração no inquérito 2280, que também tramita perante essa corte.” 

Na verdade os fatos envolvendo o PSDB são muito mais graves pois está provada a origem pública da grana envolvida, dinheiro subtraído do Estado de Minas Gerais e das estatais mineiras. No caso do PT a grana adveio de empréstimos feitos pelo partido no BMG e no Banco Rural e pela SMP&B e transferidos ao partido.

Quando o Ministério Público tenta introduzir à força dinheiro público no Caixa 2 do PT é através das acusações a João Paulo Cunha e a Henrique Pizzolato.  

Tendo vindo à tona em 2005 o "mensalão" do PT como foi chamado pela mídia golpista, o caso teve denúncia oferecida em 2006 e foi julgado em 2012.  
 
Mesmo sendo de 1998, o mensalão do PSDB só teve a denúncia oferecida quase 10 anos depois, em novembro de 2007, pelo Procurador-Geral da República, Antonio Fernando Barros, e recebida em 2008 pelo STF. Não existe previsão de quando será julgado, engatinha ainda na oitiva das testemunhas. Possivelmente ocorrerá a prescrição de vários crimes. Será que por baixo deste angu-de-caroço existe prevaricação[2]?

O papel do Poder Judiciário

A esquerda sempre lutou para defender e representar o povo. Contudo, seus recursos humanos e materiais sempre estiveram aquém desta hercúlea tarefa.

Depois do fim oficial da ditadura, reduzida aos sobreviventes e com problemas em desproporção aos seus recursos humanos, a esquerda está descobrindo agora com o julgamento do que a mídia golpista chamou de “mensalão” o que é de fato o Poder Judiciário, como funciona, como são recrutados seus membros e as conseqüências desta estrutura.

Enfim, foi desta maneira que o Poder Judiciário nunca foi objeto de estudo metódico da esquerda, que se preocupa em disputar o Executivo e o Legislativo ignorando a história do modus faciendi do poder que condenou à morte até Jesus Cristo.

Toda ditadura é contra o povo - atenta contra a soberania popular -, e depois do fim da infame a esquerda e os movimentos sociais estavam praticamente reduzidos a escombros, com grande parte de seus melhores quadros mortos ou encarcerados faltava gente para repensar os problemas da sociedade brasileira.

Este prejuízo é incalculável, a ditadura matou jovens em que a média da idade era de 23 anos, os melhores de uma geração, que poderiam ser os  melhores quadros do país e obstou a participação política e a formação política de quando nada duas gerações. A mediocridade e a predominância na classe política dos que almejam só meter algum no bolso nos dias de hoje é a conseqüência.

Sem força política no momento em que se reestruturava e redemocratizava o Estado brasileiro depois de 21 anos sem Constituição, sob uma ditadura, a esquerda e a sociedade civil na Constituinte de 1988 tiveram que “engolir”, sem tugir nem mugir, as imposições do “centrão”[3].

Assim, vingou a mais crua face da realidade política: quem tem o poder escreve a lei, a principal fonte do direito. E na Constituinte de 1988 o “centrão” nadava de braçada, escrevia o que queria na futura Lei Maior do país.

E de duas coisas os obstinados direitistas não abriam mão: um Poder Judiciário tal qual temos, bem como um Sistema Tributário em que proporcionalmente aos patrimônios empregados pagam mais impostos que patrões.

O Poder Judiciário que o “centrão” escreveu na Constituição de 1988 se estrutura tendo como base de sua pirâmide a magistratura monocrática, que é formada por juízes profissionais recrutados por concursos; somente uma pequena fatia da jurisdição de primeiro grau está sob o controle democrático da sociedade, a fração que julga os crimes dolosos contra a vida através do Tribunal do Júri.

Na outra parte, o maior quinhão da Jurisdição - os Tribunais e a magistratura monocrática -, um Poder da República (Art. 2º da Constituição Federal) é empalmado sem controle e à revelia da vontade do soberano, o povo, em franca colisão com o parágrafo único do art. 1º que está cinzelado com o seguinte teor: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de seus representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.    

Deste modo o acesso à magistratura e a ascensão na carreira são controladas com mão de ferro pelos Desembargadores. Para qualquer das duas é preciso treinamento de espião profissional constatada a necessidade de dissimulação. Qualquer palavra que denote independência pode significar o fim do sonho de galgar os Tribunais e mourejar em uma Vara qualquer. Ou o novo juiz se enquadra e aprende a subir o pau-de-sebo ou pode ser até aposentado compulsoriamente. Usar decisões dos Tribunais por mais absurdas que sejam para balizar as suas é a senha para mostrar que está sintonizado com o jogo. Ser apadrinhado por alguém da cúpula é o canal, afinal de contas subserviência e puxa-saquismo são formas de subir na vida no Brasil.

O acesso aos Tribunais é obra de muita habilidade, coisa para italianos, de óculos escuros. Sei que existem exceções nos Tribunais e na magistratura, mas me interessa a regra, e além do mais a exceção só confirma a regra.

É este Judiciário que a esquerda está descobrindo agora, direitista por conveniência do carreirismo e corrupto até a medula. Por consequência é o principal inimigo dos movimentos sociais e da esquerda que não traiu os ideais de reforma da sociedade e do próprio Estado, que não pode ser instrumento nas mãos dos empedernidos direitistas que têm como desejo maior o controle da população em níveis de semi-escravidão.

Os principais dirigentes do Partido dos Trabalhadores estão despertando agora do sonho e mergulhando no pesadelo do encarceramento que fatalmente alcançará a todos os que não se vergarem e continuarem a insistir em efetivar políticas distributivas de renda.  


[1] O caixa 2 é definido como sendo todo recurso financeiro não contabilizado pelo caixa oficial do partido e destinado a cobrir gastos de campanhas (art. 22, § 3º da Lei n. 9.504/97 – Lei das Eleições).

[2] O crime de prevaricação está tipificado no TÍTULO XI do Código Penal, Dos Crimes Contra a Administração Pública, art. 319:
Prevaricação
Art. 319. Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal:
Pena – detenção, de três meses a um ano, e multa.”
  
[3] O “centrão” como ficou conhecido o Centro Democrático era um ajuntamento político que agregava os grupos mais conservadores da sociedade brasileira e reunia a maioria dos congressistas que urdiram a Constituição de 1988. Nele estava a nata do que existia de mais reacionário no país, membros do PFL, PDS, PMDB, PTB e de outros partidos sem significância numérica.      

sexta-feira, 5 de abril de 2013

As MEMÓRIAS de Gregório Bezerra

                                    Gregório Bezerra

Graças a uma amiga do facebook, Nádia Diniz, a quem agradeço agora, por ter mencionado Gregório Bezerra em uma de suas postagens reli as MEMÓRIAS deste homem singular. Foi uma satisfação inenarrável reler as recordações deste grande brasileiro, grande pela maneira como se entregou à luta política.

Como sabem meus amigos do facebook gosto de política, e aqui no Nordeste quando alguém gosta de uma coisa demais diz-se que o sujeito come com farinha, farinha de mandioca. É o meu caso e de mais alguns amigos porque estamos sempre lendo livros relativos a política em busca de lições práticas...

Política é paixão. A luta política se desenrola pela conquista da opinião pública e a opinião pública é bastante passional. Mais de 90% do universo da política é pura paixão, mesmo que sempre seja necessária a racionalização, a busca do cálculo político. E como estamos no universo da paixão, todos sabem, existem paixões não correspondidas...

Gregório era um homem formado pelo Partidão, que o alfabetizou e lhe deu toda a instrução política. Antes de conhecer o Partidão ele disse que era apenas um homem revoltado contra as injustiças sociais, não tinha uma doutrina que o orientasse na luta política.

Ele nasceu com o século XX, nasceu em 1900 e morreu em 1983; "tirou" 23 anos de cana, cumpriu pena de prisão por 23 anos, intercalados. Aos 17 foi condenado a 7 anos de reclusão, dos quais cumpriu 4 anos, 8 meses e 25 dias. Foi enterrado vivo nas enxovias do Recife por ter se entusiasmado com a Revolução Bolchevique, foi acusado e condenado como "perturbador da ordem pública" e de "insuflar empregados contra patrões". Ainda não existia o PCB, que foi fundado em 1922 e para o qual Gregório só viria a entrar em 1930.

Gregório era um homem de partido, disciplinadíssimo, não sectário, generoso e destemido. A cana mais brava ocorreu com o golpe de 1º de abril de 1964, quando ficou preso até 7 de setembro de 1969, ocasião em que foi libertado juntamente com mais 14 presos políticos em troca do embaixador americano raptado pela ALN e pelo MR-8.

Em 1964 Gregório estava com 64 anos de idade e foi preso enquanto desmoblizava trabalhadores na Zona Canavieira de Pernambuco que queriam defender Arraes e Jango com foices, enxadas, facões. Gregório evitou o que o Exército mais queria para impor sua força, um massacre da massa camponesa desarmada.

Dirigiu-se aos engenhos de Catende, Palmares, Águas Pretas, Gameleira, Ribeirão e alguns outros mais para desmobilizar os trabalhadores rurais que esperavam armas para resistir, conforme Gregório tinha prometido.

Em Ribeirão, na sede do sindicato encontrou mais de 200 trabalhadores esperando as armas que tinha ido buscar e não tinha sido possível trazê-las pois quem tinha mais deveres de evitar o golpe tinha se omitido, negado fogo com quem estava disposto a não deixar a camarilha traidora do Brasil entregar o país ao imperialismo americano sem luta, o Exército Brasileiro, a traíra maior deste país, que agiu contra nacionais como se fosse um Exército de ocupação.

"A massa queria se dirigir ao Recife mesmo desarmada. É claro que não poderia permitir uma coisa dessas, pois seria um assassinato em massa." narrou Gregório na pág. 191 da segunda parte de suas MEMÓRIAS.

No Município de Cortês, PE, já passava de meia-noite quando encontrou mais de 200 trabalhadores esperando armas também para resistir e repor Arraes no poder. Fez uma breve preleção e explicou que: "Eterno é o povo. Eterna é a verdade." Explicou que a noite tenebrosa que os golpistas estavam trazendo para o povo passaria e que deveriam voltar para suas casas e aguardar no sindicato as instruções do partido pois naquele momento não existiam armas, não se tinha meios para resistir ao golpe dos serviçais do imperialismo americano. 


Estava angustiado, tinha feito o possível para preparar o povo, preparar os trabalhadores para a luta, e chegado o momento não existiam armas para a resistência; tinha de desmobilizá-los pois era necessário evitar um massacre inútil. Ele sabia pela experiência que no Brasil a todo período de liberdade, participação política e conquistas dos assalariados advinha uma revanche. 

Todo o trabalho de Gregório antes de 1964 na Zona Canavieira de Pernambuco consistia em estender aos trabalhadores rurais direitos previstos na CLT apenas para os trabalhadores urbanos, como o direito à sindicalização, a luta contra o trabalho gratuito, a semi-escravidão inserta no cambão, na meia, na terça e no vale do barracão.

Ele foi preso ainda no Município de Cortês e quase foi trucidado logo aí. Antes fosse pois foi torturado de maneira sádica pelo Coronel Villoc, secundado pelo General Bandeira, arrastado pelas ruas do Recife com cordas penduradas no pescoço. Foi salvo pelo clamor público, que pela tv via o espetáculo sádico do Exército e telefonava pedindo para que parasse a covardia.

Gregório lutava nos anos que antecederam 1964 contra a semi-escravidão como o PT hoje luta para libertar a classe trabalhadora, e as domésticas em particular, do trabalho semi-escravo.

Gregório era um cabra macho (o maior elogio que um nordestino faz a outro), um lutador do povo, herói e orgulho do povo brasileiro.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

                              AS MARCAS INDELÉVEIS DA DITADURA 
    


Hoje, 1º de abril de 2013, faz 49 anos da ocorrência do golpe militar que mergulhou o país na mais perversa ditadura do período republicano. 

Em um levantamento provisório e estimado por baixo, enquanto durou o regime de banditismo oficial aproximadamente 50 mil pessoas passaram por prisões por motivos políticos, aproximadamente 20 mil foram submetidas a torturas, 360 militantes de esquerda foram assassinados, somados os mortos e os desaparecidos (levantamento atualizado aponta 379), 11 mil indiciados e processados em 800 processos por crimes contra a segurança nacional, centenas de condenações a penas de prisão, 4 condenações a pena de morte, 130 banidos, 780 cassações de direitos políticos por dez anos, milhares de exilados, incontáveis reformas, aposentadorias compulsórias, e exoneração do serviço público por atos arbitrários dos detentores do poder.[1]      

Estes dados estatísticos são significativos mas não revelam toda a extensão do dano causado à sociedade no que diz respeito ao estiolamento das instituições, humilhação, escárnio e terror pelos quais passaram várias gerações enquanto durou a ditadura.    

O Exército ao tomar o poder com o golpe de Estado de 1º de abril de 1964 e instalar uma ditadura contra o povo se voltou contra a sociedade, principalmente contra os cidadãos altivos, que passaram a ser tratados como inimigos declarados ou olhados com hostilidade e suspeição pelos usurpadores do poder.

Uma ditadura para justificar sua violência precisa de inimigos, reais ou inventados, e para tanto, espezinha, desafia e provoca os cidadãos para a briga. Os mais altivos combatem-na com todos os meios e armas disponíveis, como deve ser.


Foi assim inventando inimigos, desafiando e espezinhando os cidadãos que a ditadura dos militares subjugou todas as instituições da sociedade brasileira não obstante os fatos demonstrarem que o golpe teve um nítido viés classista. As centrais sindicais da época, PUA – Pacto de Unidade e Ação -, e CGT – Comando Geral dos Trabalhadores – logo após o golpe foram postas na ilegalidade. Em 21 anos de ditadura mais de 3.000 sindicatos foram fechados e colocados sob intervenção, nenhum era do patronato ou dirigido por sindicalistas corruptos.

Não devemos jamais esquecer que abolido o direito de greve pela ditadura, a massa assalariada ficou submetida a regime de trabalho semi-escravo, constatada a impossibilidade de organização sindical.

Instituições como a Ordem dos Advogados do Brasil, Associação Brasileira de Imprensa, Congresso Nacional, sucumbiram todas, exceto parte da Igreja Católica - aquela fração que não apoiou o golpe -, isto porque os militares não podiam retirar os empregos de padres, bispos ou cardeais. 

 O ponto final posto à ditadura foi obra do próprio Exército, e como é sabido, a tentativa civil de derrotá-la, apesar de todo heroísmo e desprendimento não foi bem sucedida. Com o fim da ditadura (1964-1985) o Exército foi taticamente derrotado, sua ala denominada de “linha dura” foi enquadrada e aquartelada pelo “grupo da Sorbonne” ou castelistas, seguidores de Castelo Branco (1964-67), alijados do poder com a ascensão de Costa e Silva (1967-69) e Médici (1969-74), que retornaram ao poder com Geisel (1974-79).

O grupo castelista liderado por Geisel e Golbery - os mesmos que tinham conspirado para depor Jango atentando contra a democracia e a República -, voltou ao poder para retirar o Exército da entalada em que tinha entrado: tomar o poder golpeando a soberania popular, fazer uma ditadura pondo-se contra o povo e não ter prazo e nem saber como sair do poder sem ter culpabilizados pelos desmandos e crimes de diversas naturezas.  

Foi desta maneira que o Exército foi taticamente derrotado mas estrategicamente vencedor pois a longo prazo a sociedade brasileira estaria grandemente moldada nos termos almejados pelos assaltantes do poder em 1964: “A essência das ditaduras não está naquilo que elas fazem para se perpetuar, mas naquilo que a partir de certo momento já não precisam fazer.”[2]

Os danos morais – covardia, delação, puxa-saquismo


É desta maneira que se pode entender que uma ditadura não termina com seu fim oficial, suas marcas e danos causados às instituições, valores e psicologia social permanecem por muito tempo, tanto no sentido de repulsa como de permanência do que foi inoculado à força no tecido social. 

Sabedor de que o poder tem origem psico-sociais, o Exército aplicou-se em moldar e criar novos hábitos, costumes, moral e psicologia de massas para obter algum consentimento do povo. Assim, valeu-se largamente da cenoura e do porrete para formar o tipo de cidadão que servia à perfeição para seu desiderato ditatorial. Quem não se deixasse submeter pela força das armas teria que está disposto a morrer, ser torturado, cumprir longas penas ou passar por processos administrativos e judiciais humilhantes ou buscar rapidamente o caminho do exílio.

É sabido que a consciência cívica de que os detentores do poder não podem exercê-lo de maneira tirânica - algozes do cidadão a lhe suprimir direitos fundamentais e infligir tormentos e humilhações -, dificilmente está ao alcance de analfabetos e semi-analfabetos.

Deste modo, a ditadura iniciou de imediato a perseguição a artistas, cientistas, intelectuais e o desmonte da escola pública, começando por lhe retirar a qualidade por todos os meios possíveis, da destruição da carreira de professor pelo aviltamento dos salários à supressão de métodos que imprimiam melhor qualidade ao ensino, coisas que até hoje, passados vinte e quatro anos do fim oficial da infame ainda não foram recuperadas.   

Para impor o medo e controlar a sociedade pela coação o Exército turbinou seu próprio aparato de espionagem e repressão, a chamada 2ª Seção, organizando os DOI-CODI’s, mas acima de tudo para este serviço sujo contou com as polícias civis e militares, a polícia federal e as famigeradas DOPS – Delegacias de Ordem Política e Social.  

Mesmo se valendo da força para se impor aos opositores pela tortura, ameaça ou assassinato, para pôr de joelhos, intimidar ou aniquilar os que não se deixavam submeter, a delação, a subserviência e a bajulação foram incentivadas e premiadas ao máximo pelos usurpadores do poder.  

O Exército sabia que sem uma corrente de apoio de incontáveis puxa-sacos nenhuma ditadura se firma. Foi este tipo de cidadão, o puxa-saco, que caiu nas graças do Exército, que obteve emprego no Estado sem concurso público, financiamento com juros subsidiados e todos os tipos de benesses usados pela ditadura para cooptar e obter alguma legitimidade.

Estes métodos usados pela ditadura para obter o silêncio dos cidadãos marcou profundamente a sociedade brasileira, formando várias gerações de cidadãos subservientes, sem altivez, malandros, safados; é o que temos hoje em larga escala do espectro social, a contagiar como peste partidos políticos, empresas e demais ambientes sociais.

Este tipo de cidadão não tem fibra nem altivez para opor-se a qualquer ditadura; subserviente, bajulador, semi-analfabeto e malandro, não lhe afeta as humilhações pelas quais passa uma pessoa desonesta nem os ultrajes impostos pelas autoridades em um regime que viola os DIREITOS HUMANOS; raciocina que caso se mostre servil poderá safar-se ou até retirar algum proveito. É a cereja do bolo do tipo de cidadão que a ditadura cultivava em seu celeiro com cenoura e porrete.

Contudo, para desalento dos criminosos que assaltaram o poder, seus sequazes e viúvas, ficaram exemplos de resistência tenaz incorporados ao repertório dos movimentos sociais e políticos. Pela primeira vez na história do Brasil uma ditadura foi enfrentada por civis que decidiram se insurgir pela luta armada e não se deixar subjugar sem luta ou até mesmo preferir a morte a se deixar pôr de joelhos por seus algozes.

Cidadãos como o baiano Carlos Marighella, Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo, Franklin Martins, Ricardo Zaratini, Cap. Carlos Lamarca, Zequinha Barreto, João Leonardo Rocha, Carlos Eugênio da Paz, Osvaldo Orlando da Costa, Inês Etiene Romeu, Aurora Nascimento Furtado, Eduardo Collen Leite, o Bacuri, e tantos outros, milhares, ofereceram a mais tenaz resistência ao terror de Estado que se abateu sobre a República. 

O sangue derramado e o sacrifício destes brasileiros não foi em vão, o exemplo de resistência ficou e contagiou. Outra ditadura: NUNCA MAIS.





[1] GORENDER, Jacob. Combate nas Trevas. São Paulo. Ed. Ática. 6ª ed., 2ª impressão. P. 269-70.

[2] GASPARI, Elio. A Ditadura Escancarada. São Paulo. Companhia das Letras. 2002. P. 232.